Os 60 anos de O Eternauta e a sua Geografia do Fim do Mundo.

O presente texto procura apresentar uma importante obra de Quadrinhos, de grande relevância histórica e cultural para nossos vizinhos argentinos, e analisar em que medida ela pode nos ajudar numa reflexão acerca do espaço geográfico.

Em 2017, lembramos os 60 anos da primeira publicação de um clássico dos quadrinhos argentinos e, quem sabe, mundial. Em 1957, O Eternauta começou a ser publicado, na revista Hora Cero Semanal. Os leitores acompanhavam, semanalmente, uma nova página da história que só se completaria no ano de 1959. Parece que existe uma edição brasileira dessa obra, lançada pela Martins Editora, porém, nos sites das maiores livrarias, ela se encontra indisponível. De modo que deve ser bem difícil adquirir O Eternauta no Brasil. A versão que tenho é de uma edição comemorativa de 2007, quando completou 50 anos do seu lançamento, e me foi dada por um amigo argentino.

Com roteiro de Hector German Oesterheld e desenhos de Francisco Solano Lopez, O Eternauta pode ser classificado como uma obra do gênero ficção científica, porém as reflexões geradas por sua leitura extrapolam esse campo, indo reverberar em textos de historiadores, sociólogos e cientistas políticos, tamanho é o seu alcance no imaginário social daquele país. Não é raro de se encontrar pinturas do personagem pelas paredes das grandes cidades argentinas, sendo um verdadeiro ícone dos movimentos de contestação ao sistema.

Seu criador, o escritor H.G. Oesterheld, mereceria um capítulo à parte. Pois, seu nome, junto com os das suas quatro filhas, consta na longa lista de desaparecidos políticos da última ditadura militar argentina (para saber mais clique aqui). Porém, aqui, nos deteremos mais em aspectos da citada obra. Vamos a ela.

O Eternauta

A História.

Resumidamente, O Eternauta conta a história de uma invasão alienígena que pega a Terra de surpresa e de como um grupo de pessoas comuns, de repente, tem suas vidas totalmente modificadas, se vendo imersas em uma luta por sua sobrevivência e por encontrar um meio de expulsar os invasores.

A história começa com um personagem, um roteirista de histórias em quadrinhos (mais tarde, assumido como alter ego do próprio Oesterheld), que, trabalhando em sua escrivaninha, no conforto do seu lar, recebe a visita de um estranho que se materializa diante dele. Esse misterioso visitante se apresenta como o Eternauta, o viajante da eternidade. Que navega pelo tempo e espaço, visitando as mais improváveis dimensões, em busca de sua família perdida. Ele conta para o seu anfitrião a assombrosa história da invasão alienígena, que, nessa época em que os dois conversavam, ainda não havia acontecido.

O desenrolar da história é bem curioso, cada página guarda uma novidade para a posterior. Imagino que isso se deva pela maneira como ela foi publicada, semanalmente. Os autores precisavam manter a curiosidade do leitor para que ele se animasse a ler a próxima parte na semana seguinte. Assim, aos poucos, a invasão alienígena vai se descortinando, lentamente, os personagens só a percebem depois de um certo tempo. Também, gradualmente, vão aparecendo problemas que devem ser solucionados pelos sobreviventes, como busca de alimento, de proteção, de comunicação, etc. Mais tarde, personagens novos surgem, um de cada vez, invasores, os aliados, e a trama vai se desenrolando. O próprio Oesterheld comenta que não havia um roteiro fechado, pronto, para a história. Havia, sim, uma ideia geral, mas que muitas coisas foram surgindo no decorrer do processo.

A invasão

Ironicamente, é por viverem no contexto da guerra fria e, talvez, por estarem à espera do fim do mundo, que os personagens principais sobrevivem à primeira investida dos extraterrestres: a nevada mortal! Reunidos em um sótão de um chalé, quatro amigos jogavam cartas, conversavam e ouviam rádio. Lá pelas tantas, um informe chama a atenção dos jogadores. Os Estados Unidos acabavam de executar um teste nuclear, e não se sabia que proporções ele poderia ter alcançado. Os amigos ouvem, comentam o assunto e voltam para o seu jogo. Enquanto jogam, o autor vai nos revelando suas identidades, o que fazem, que importância terão no decorrer da história. De repente, alguém nota uma estranha nevada do lado de fora, uma neve fosforescente, muito bizarra. A reação de um deles é abrir a janela para ver do que se trata, nesse momento, um outro impede essa ação, pois poderia ter a ver com o teste nuclear que acabava de ser noticiado no rádio, nesse caso, então, haveria a suspeita dessa neve ser algum material radiativo. A janela não foi aberta e isso salvou a vida de todos naquela casa. A nevada mortal tirava a vida de todos os desavisados que entravam em contato com ela.

O autor, na minha opinião, usou muito bem o contexto vivido na época, anos 50 e escalada da guerra fria, para criar um pretexto que salvasse os personagens principais desse primeiro ataque alienígena. Mais tarde, os invasores revelariam novas e estranhas armas. O fato é que, dentro da história, quem estivesse em casa, estaria a salvo. Sair à rua significava ser morto pela nevada. Gradualmente, os personagens vão discutindo e chegando a conclusões e, com a ajuda do professor Favalli, um professor universitário de grande sabedoria, eles vão superando os problemas. Logo percebem que bastava confeccionar uma roupa que isolasse o corpo do contato com os flocos mortais para poderem sair e buscar mantimentos.

Assim, devidamente protegidos, saem pela nevada, em busca de comida, combustível e armas. A geógrafa britânica Doreen Massey fala do espaço como a dimensão do encontro, do acaso. Movimentando-se pelo espaço, pessoas se encontram, relações acontecem e, a partir daí, o futuro vai se formando. Se os protagonistas da história tivessem ficado apenas dentro do chalé, sem se arriscar na nevada, não teriam vivido tudo que viveram e conhecido tudo que conheceram. Saindo a procura de mantimentos, fizeram contato com outros sobreviventes e puderam participar da resistência à invasão. Mais tarde, acabam voltando ao chalé, e lá encontram, novamente, a mulher e a filha do personagem principal, que haviam ficado esperando seu retorno. É possível imaginar, e a história dá a entender, que, quem ficasse em casa, naquela situação, estaria fora de perigo. Se você pudesse encontrar os meios de sobrevivência sem sair de casa, não teria grandes problemas.

Refletindo sobre esse aspecto da história, podemos pensar em de que maneira, nós, em nossas vidas cotidianas, muitas vezes, somos forçados a “ficar em casa”. Qual é a “nevada mortal” que nos aflige, nos impedindo de travar relações com o próximo e organizar a “resistência contra os invasores”? Acredito que, como os protagonistas de O Eternauta, precisamos discutir e encontrar meios para nos arriscarmos na tormenta e nos prepararmos para combater todos os problemas que nos assolam enquanto coletividade.

Porém, a nevada mortal não era a única arma dos invasores. À medida que os protagonistas avançavam pela cidade de Buenos Aires, novas ameaças surgiam. O leitor porteño ia se identificando com a história, as ruas pelas quais os heróis passavam eram conhecidas de todos, assim como os lugares. O auge das forças da resistência foi quando se entrincheiraram no estádio do River Plate. Lá enfrentaram os “cascarudos”, e só sucumbiram quando os invasores lançaram mão de um estranho aparato provocador de alucinações, que fez com que os soldados e voluntários saíssem do seu esconderijo protetor, colocando-se vulneráveis para as armas alienígenas. O uso desse recurso, de ambientar a história em cenários conhecidos, ressignificando-os, parece ter sido um fator importante na identificação do público com a história. Pois, para a geografia, o lugar é a porção do espaço que envolve valores afetivos e de identidade. Na construção desses significados entra o fator cultural, através da linguagem, ou seja, de como esses lugares são apresentados. Quem sabe, essa possa ter sido uma aposta dos autores.

Com o tempo, a tática do invasor foi se revelando cada vez mais sinistra. Os primeiros inimigos com quem a resistência se confronta, na verdade, não passavam de outros povos de outros planetas, que também foram invadidos e escravizados, sendo, então, usados para invadir outros mundos. São controlados através de aparatos teledirecionadores, implantados em seus corpos, transformando-os em verdadeiros robôs, que apenas seguem as ordens que lhes são transmitidas. Inclusive, no exército invasor, já começava a incorporar-se terráqueos. Os autores da história não apresentam os verdadeiros maestros da invasão, apenas são mencionados pelo seu nome, os “Eles”! Desse modo, não conhecemos a aparência dos verdadeiros comandantes. Não sabemos muito quem são esses dominadores de mundos.

Sabemos, com exatidão, quem são os responsáveis pela ordem como as coisas funcionam no nosso mundo? Quem são os “Eles” da vida real? Onde nos implantaram os teledirecionadores? Somos teledirecionados de algum modo? Existem maneiras de influenciar o modo de pensar das pessoas, os meios de comunicação estão aí. Os “formadores de opinião” estão aí. Esse outro aspecto de O Eternauta me parece muito oportuno para fazer esse debate. Não é à toa que, mais tarde, seus autores são perseguidos pelo regime militar argentino. Será que precisamos ser invadidos por uma força extraterrestre para vermos o mundo acabar?  Na minha opinião, O Eternauta nos mostra que não.

Considerações finais

Este pequeno texto teve como objetivo apresentar essa importante obra da arte sequencial latino-americana e fazer uma breve discussão sobre os pontos que ela levanta. Espero ter ajudado a despertar a curiosidade sobre esse trabalho. Sei que, para brasileiros é um pouco difícil acessá-la, mas não desista de primeira.

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