As Transformações do Espaço Geográfico na sala de aula através das histórias em quadrinhos

O ensino de Geografia praticado nas escolas muitas vezes se caracteriza por uma coleção de informações a serem repassadas aos alunos. Não é raro nos depararmos com professores aplicando provas que exigem do aluno saber quais são os principais recursos minerais do Canadá ou os produtos que fazem parte da pauta de exportações do México, etc.

Nesses casos, que tipo de Geografia se está trabalhando em aula e que conhecimento se busca atingir com essas estratégias? Certamente, é necessária a memorização de alguns elementos chave para se praticar uma leitura geográfica, por

exemplo, alguns países de cada continente, os nomes de alguns organismos internacionais, as maiores cidades brasileiras, as características de algumas regiões do mundo, entre outras coisas. Mas, parece que a chamada “decoreba” ainda ganha muito destaque nas escolas brasileiras. Ao mesmo tempo, se discute, e muitos fazem acordo, quanto a importância de um ensino crítico, menos dedicado à memorização e mais à reflexão, porém, quantas são as propostas existentes para a prática desse ensino?

Apresento uma tentativa, entre tantas outras, de contribuir com o desafio que é a elaboração de práticas de ensino de Geografia que estimulem a criatividade e o exercício do pensamento dos alunos. Para isso, trago o exemplo de uma atividade, na qual fiz uso da linguagem das Histórias em Quadrinhos (HQs), para observar e discutir, em sala de aula, as transformações que ocorrem no espaço geográfico.

QU AL ENSINO DE GEOGRAFI A?

Que objetivo busco atingir com minhas práticas em sala de aula? Essa pergunta pode não ser tão óbvia como parece. É relativamente fácil para um professor ou professora cair na armadilha do cotidiano, e fazer-se esse questionamento todos os dias pode ser um meio de se prevenir. Para quem trabalha em uma escola pública brasileira, normalmente vai se deparar com uma quantidade considerável de turmas e estudantes. Entrar e sair de uma sala de aula e outra, elaborar provas e trabalhos, fechar notas, preencher cadernos de chamada, entre outras coisas, podem nos levar a realizar nosso trabalho de forma mecânica, automatizada. Além disso, não são todas as escolas que oferecem um tempo para “parar para respirar” e conversar sobre o trabalho que está sendo feito, assim, o risco de sermos apanhados pelo ritmo do dia-dia escolar é grande.

Portanto, quando elaboro uma atividade para meus alunos e alunas, primeiro penso em onde quero chegar com ela. Ainda que, num primeiro momento, seja grande a chance de não atingir esse objetivo programado, penso ser necessário fazer essa reflexão, pois, a experiência pode nos ajudar a aperfeiçoar nossas práticas, prevenindo um possível “estancamento” delas. Para quem se encontra na mesma situação que a minha, professor do ensino fundamental em uma escola pública brasileira, acredito que, devido às poucas brechas existentes dentro da rotina escolar para a prática do pensamento, pode ser válido refletir sobre que tipo de ensino não quero realizar. Por exemplo, não quero privilegiar demasiadamente a capacidade de memorização e resignação (alunos calados me observado) em minhas atividades. Prefiro alunos mentalmente ativos, pensando e criando, do que muito bem comportados me ouvindo, sem refletir em nada do que está sendo trabalhado.

Dessa forma, propor atividades que estimulem a problematização

e análise do mundo me parece necessário para quem se aproxima dessa ideia de ensino de Geografia. Ajudar a construir um conceito não é o mesmo que dar a explicação pronta para ser digerida, memorizada e repetida em uma possível prova, como argumenta Costella (2013, p.65):

Construir o conhecimento geográfico é diferente

de estudar Geografia de forma enciclopédica. Entender

os acontecimentos refletindo sobre os fatos

não significa memorizar os dados e assim apenas

ter segurança em repassá-los. Entender os fenômenos

é conseguir, a partir deles, desenvolver a

condição de mobilizar o pensamento e conseguir

assim aproveitá-lo em diferentes situações. (…)

São essas ações que permitem a construção do conhecimento. Da mesma maneira que é necessária essa reflexão de onde queremos chegar com as atividades que preparamos para nossas aulas, também acredito ser importante buscar conhecer, o melhor possível, os conceitos que queremos trabalhar.

Evidentemente, alguém pode argumentar que essa não é uma questão válida, afinal um professor deve ter domínio total sobre todos os conceitos de sua disciplina. Infelizmente, tendo a acreditar que isso não se dá dessa maneira.

O cotidiano escolar pode nos afastar das discussões atuais,ou de quaisquer discussões, sobre nosso campo de conhecimento e podemos facilmente nos conformar em repetir conceituações ou enunciados prontos em livros didáticos e quanto melhor posicionados estivermos dentro da nossa disciplina e do mundo, creio que o trabalho em sala de aula será o mais honesto possível para com estudantes e escola, no sentido de que faço todos e todas saberem como penso e me posiciono. Além do mais, quando temos certeza absoluta de conhecermos algo, aí é que estamos mais perto de não conhecê-lo. Talvez, manter algumas dúvidas, consciente de que meu conhecimento sobre determinada matéria nunca estará pleno, seja uma atitude saudável. Como diz Freire (2002, p.22): “(…) o inacabamento do ser ou sua inconclusão é próprio da experiência vital. Onde há vida, há inacabamento”.

Assim, gostaria de discutir um pouco o conceito geográfico que procurei abordar na proposta de atividade que apresentarei nesse artigo.

ESPAÇO E QUADRINHOS

O conceito de Espaço me parece algo não muito fácil de definir e fazer isso agora não é o objetivo deste texto, mas posso dizer que existe certo consenso de que ele é o objeto da ciência geográfica. Para Haesbaert (2011) o Espaço poderia ser considerado a categoria maior da Geografia, de onde se desprenderia os demais conceitos, território, região, paisagem, lugar, etc. Santos (2006) faz uma definição geral sobre essa categoria maior, para ele o Espaço é formado por um conjunto de sistemas de objetos e sistemas de ações, ou seja, as formas naturais e técnicas sobre a superfície do planeta que compõe uma totalidade em constante transformação.

Sem a intenção de simplificar todo um debate, creio que essas definições são suficientes para trabalhar com turmas de ensino fundamental, considerando que, segundo o PCN de Geografia (1998), essa etapa da educação básica deve estar voltada para a construção das noções de cidadania e pensamento crítico. Além disso, “ajudar a formar conceitos é (…) um papel central do professor” (CAVALCANTI, 2013, p.224), por isso, auxiliar os alunos a construir sua noção de Espaço, aproximando-se o máximo possível de seu conceito é um dos objetivos da proposta de prática aqui apresentada.

O estudo da Geografia através da leitura do Espaço, observando suas características e suas transformações em mapas, fotos, desenhos, etc. pode muito bem guardar relações com a linguagem dos Quadrinhos. McLoud (1995, p.62) coloca que “nossa percepção sobre a ‘realidade’ é um ato de fé baseado em meros fragmentos”.

Nunca estive na Ucrânia, mas através de relatos e imagens de TV e jornal, acredito que ela exista. Tudo que sei sobre o mundo me chegou em pedaços pelos dos meios de comunicação, assim me impressionei com os enfrentamentos entre manifestantes e policiais na Grécia, com as enormes ondas que invadiram as costas tailandesas, com as magníficas cadeias de montanhas do Himalaia, etc. Dessa maneira, juntando partes, vou construindo uma ideia do todo que possa ser o mundo.

Da mesma forma, lemos uma HQ. Cada página nos traz determinada quantidade de quadrinhos e vamos montando eles mentalmente para ter uma noção do todo que é a história que o autor quer nos contar. Cada fragmento possui uma relação um com o outro e através da sequencia com que nos são mostrados, construímos um sentido para eles. A diferença é que no estudo da Geografia, não temos essa facilidade, os fragmentos do mundo não estão dispostos linearmente e para fazermos uma leitura satisfatória temos que usar nossoraciocínio e nossa imaginação.

Para Santos (2006), os objetos materializam o tempo no Espaço, inseridos segundo uma ordem, uma sequencia, eles dão um sentido para aquele meio. A construção do condomínio, no exemplo anterior, pode significar um avanço da ocupação humana naquela porção do espaço, modificando a paisagem e produzindo um sentido para quem a observa.

Moradores antigos do local podem ter uma visão pessimista desse fato, ou seja, maior fluxo de automóveis e gente, barulho, lixo, etc. e empresários do setor imobiliário podem ver a situação de modo inverso, possibilidade de aumento nos negócios, por exemplo. Novamente, a sequencia dos eventos produz um sentido para aquele meio.

Nas HQs, a noção de tempo também tem a ver com a sequencia dos eventos apresentados. Para todos os efeitos, cada quadrinho comprime um instante do tempo e do espaço.

Uma ação divida em muitos quadros, valorizando cada aspecto da mesma, pode dar uma noção de uma passagem de tempo mais lenta. Um corte abrupto de uma cena para outra, traz a ideia de velocidade, rapidez. Em realidade, nas Histórias em Quadrinhos, tempo é espaço (McLOUD, 1995).

Não valeria o mesmo para o Espaço geográfico? Fica aqui essa questão para aprofundamento futuro.

A leitura geográfica, o estudo da Geografia como uma leitura de um texto/mundo ou de um mundo/texto, já foiabordada por REGO (2003). A experiência de sala de aula trazida aqui, e realizada em meu local de trabalho, pode ser uma proposta para trazer essa ideia para a prática.

QUADRINHOS E LEITURA

GEOGRÁFICA NA SALA DE AULA

A utilização de HQs em sala de  aula tem sido cada vez mais comum. O potencial pedagógico dessa linguagem já foi explorado em dezenas de práticas e trabalhos escolares.

Para a experiência que apresentarei aqui, usei a HQ intitulada Uma Breve História da América, como mostra a Figura 1, de

Figura 1 – Uma Breve História da América. Fonte – CRUMB, Robert. América. São Paulo: Conrad, 2010.

autoria do quadrinista estadunidense Robert Crumb. É possível observar que o autor buscou apresentar um exemplo do processo de urbanização pelo qual passou uma imaginária paisagem americana. Na ordem escolhida pelo autor, vemos os objetos naturais serem gradativamente substituídos pelas formas construídas pelo homem, até que não reste mais nada das características iniciais. Um processo comum em diversas partes do mundo.

A atividade consistiu em recortar os quadrinhos dessa HQ e entregá-los aos alunos, fora da ordem original, pedindo-lhes que imaginem uma sequencia para os acontecimentos apresentados nos quadrinhos e os organizem como tal.

O autor não nos apresenta as casas sendo construídas por operários, nem a rua ser asfaltada, mas imaginamos que foi isso que aconteceu. Poderia ser diferente? Não sabemos, por isso, ao pedir aos alunos que construíssem sua ordem, não estabeleci a existência de uma sequencia “certa” para os quadrinhos, os deixei livres para que escolhessem as suas.

Existe outra possibilidade de sequencia para a HQ de Crumb? Quem sabe a história poderia começar pelo último quadrinho? Isso implicaria considerar que um processo de urbanização pode ser revertido. De fato, algo semelhante a isso pode acontecer. É possível encontrar no mundo exemplos de cidades esvaziadas, seja por uma guerra civil, por um desastre climático, por uma epidemia, por um acidente nuclear, etc. Por isso, qualquer ordem vinda dos alunos era válida, cabendo a mim o papel de problematizar as escolhas feitas por eles. Por que escolheram determinada sequencia? O que seria preciso acontecer para se justificar a ordem escolhida?Enfim, aqui é requerida certa dose de criatividade por partedo professor.

Um aluno explica a sequencia escolhida por ele da seguinte forma:“(…) Com o tempo o lugar foi evoluindo mais e mais (…)”. Nesse exemplo, outra discussão é possível ser feita: Todo processo de urbanização, ou seja, a substituição total das formas naturais por outras construídas pelo homem vai representar,necessariamente, uma “evolução”? Que significados normalmente são atribuídos a essa expressão? Podemos dizer que, no caso aqui, “evoluir” significa alcançar uma melhor condição de existência? Temos que estar atentos para o que os alunos têm para nos apresentar.

Outra atividade ligada a essa história é pedir aos alunos que construam um último quadrinho para a sua sequencia. Como ela poderia terminar? Que fim pode ter esse processo de urbanização? Ou de “desurbanização”, se for o caso. Na história original, o autor apresenta um epílogo com três finais distintos para a sua história, podemos vê-los na Figura 2.

Figura 2 - Epílogo. Fonte - CRUMB, Robert. América, São Paulo: Conrad, 2010.

Figura 2 – Epílogo. Fonte – CRUMB, Robert. América, São Paulo: Conrad, 2010.

A primeira alternativa coloca um desastre ecológico de algum tipo, esvaziando a cidade e deixando apenas ruínas. No segundo quadrinho vemos veículos voadores, jardins formatados homogeneamente e casas de arquitetura mais compacta e simples, podendo lembrar certa racionalidade. Por fim, temos uma espécie de eco-vila, sem automóveis, prédios ou asfalto, onde as árvores predominam e transmitem um tipo de sensação de tranqüilidade.

Sem apresentar essas alternativas aos alunos, lhes pedi que criassem o seu último quadrinho, deixando-os livres para criarem, pois as possibilidades são infinitas, tanto para a imaginação deles, quanto para as transformações espaciais.

Basta lembrar que na história do planeta, florestas cobriram desertos e montanhas isolaram mares.

Trago um dos trabalhos dos alunos na Figura 3.

Figura 3 - O Tempo. Fonte - Trabalho de aluno.

Figura 3 – O Tempo.  Fonte – Trabalho de aluno.

Nele, procurou-se representar a cidade logo depois daquele intenso processo de urbanização. No desenho, vemos que a quantidade de construções diminui um pouco e as árvores voltam a ganhar sensivelmente mais visibilidade.

Explicando o seu desenho, o aluno escreve: “Em lugar de casas a um morro (…) as casas foram saindo e criou um morro (…). Criou também um hospital para as pessoas com ambulância e tudo (…)”

Nesse exemplo, a primeira discussão que podemos fazer é: como pode se “criar” um morro ou um hospital? Quais são os processos responsáveis por modelar o relevo? Qual é a necessidade de se construir um hospital? Quem tem o papel de construir hospitais? Essas são algumas problematizações possíveis. Também podemos discutir sobre essa noção de “criar”. Não estaria aí uma ideia de que as transformações espaciais acontecem de maneira “natural”? Ou seja, de que não há influência da vontade humana nas coisas ao nosso redor.

Assim, podemos “naturalizar” a derrubada de uma floresta, a remoção de uma favela, um congestionamento de trânsito, etc. Como se tudo que acontecesse no mundo não nos dissesse respeito e tão pouco pudéssemos fazer qualquer coisa para interferir, como se todas as transformações espaciais fossem tão inevitáveis quanto a queda de um relâmpago, um terremoto, uma erupção vulcânica ou um furacão.

Enfim, são muitas as possibilidades que essa atividade traz para as discussões em sala de aula, tirando o aluno da posição de receptor de informações, e fazendo do professor um auxiliar na busca pela construção do seu conhecimento.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Os assuntos relacionados ao ensino de Geografia e às Histórias em Quadrinhos não podem se esgotar em um único trabalho. Assim, fica aberto mais um caminho, entre vários, para que essa viagem tenha prosseguimento.

Cabendo ao professor escolher o seu O importante, na atividade proposta aqui, é sempre manter-se aberto para o que os alunos podem trazer e procurar não apresentar o caminho “certo”, deixar que façam suas escolhas, pois tudo que trazem, pode ser aproveitado em sala de aula, basta estar com seu ouvido atento. Um aluno, em seu trabalho, concluiu sua história com um “apocalipse zumbi”. Mesmo essa ideia, pode ser relacionada com o conteúdo das transformações espaciais, se a considerarmos tal como uma epidemia de uma doença qualquer que ataca uma determinada população.

Embora possamos, eventualmente, nos preocupar com o fato dos alunos não terem compreendido determinado conceito, é preciso considerar que o conhecimento não se constrói apenas naquele momento em sala de aula. Aí pode acontecer um primeiro impulso, mas serão necessárias mais experiências de vida, mais leituras, sempre em busca de preencher uma eterna incompletude, um eterno inacabamento.

Tal como o Espaço geográfico, sempre mutável. Nunca acabado. Acredito que nosso papel está próximo de ser cumprido se podemos auxiliar os alunos para que construam sua leitura, seu entendimento sobre o mundo, e então possam fazer suas escolhas, quer seja a de se tornarem meros expectadores ou de intervirem para a sua modificação. É bom lembrar que nenhuma dessas escolhas implica passividade, pois ambas possuem suas consequencias.

REFERÊNCIAS

BRASIL. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares

nacionais: geografia/ Secretaria de Educação Fundamental. Brasília:

MEC/SEF, 1998.

CAVALCANTI, Lana. Apre(e)nder a paisagem geográfica: a experiência

espacial e a formação do conceito no desenvolvimento das pessoas.

In: PEREIRA, Marcelo G. (Organizador). La opacidad del paisaje: formas,

imágenes y tiempos educativos. Porto Alegre: Imprensa Livre, 2013.

COSTELLA, Roselane Z. Movimentos para (não) dar aula de geografia e

sim capacitar os alunos para diferentes leituras. In:CASTROGIOVANNI,

Antonio C.;TONINI, Ivaine M.; KAERCHER, Nestor A (Organizadores). Movimentos

no ensinar Geografia. Porto Alegre: Imprensa Livre: Compasso

Lugar-Cultura, 2013.

FREIRE, Paulo. A Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática

educativa. 25 ed. São Paulo: Paz e Terra, 1996.

HAESBAERT, Rogério. Espaço como categoria e sua constelação de conceitos:

uma abordagem didática. In: TONINI, Ivaine M. et al (Organizadores).

Porto Alegre: Ufrgs, 2011.

McLOUD, Scott. Desvendando os Quadrinhos. 3 ed. São Paulo: Makron

Books, 1995.

REGO, Nelson. O ensino de Geografia como uma hermêutica instauradora.

In: REGO, Nelson et al (Organizadores). Um pouco do mundo cabe nas

mãos. Porto Alegre: Ufrgs, 2003.

SANTOS, Milton. A Natureza do Espaço: técnica e tempo, razão e emoção.

4 ed. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2006.

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