Migrações em quadrinhos

Quadrinhos na Internet

Neste post a ênfase vai para os trabalhos de alunos. Realizados durante o ano de 2014, em uma turma de sétimo ano de uma escola municipal de Gravataí/RS, onde trabalhei. Tratam-se de Histórias em Quadrinhos onde os estudantes procuraram expressar sua compreensão sobre o conteúdo trabalhado em aula, no caso, migrações populacionais. Aqui eles tiveram total liberdade para se expressarem. Cada um abordou o tema de um ângulo diferente. Alguns viram vantagens em sair de sua terra natal para outro lugar, outros viram desvantagens. Alguns representaram a seca e a fome como motivos para o deslocamento das pessoas, outros escolheram a violência. O importante foi deixar que expusessem suas visões a cerca do assunto, o que permitiu um aprofundamento da discussão em sala de aula. Abaixo, você pode conhecer alguns dos trabalhos, divirtam-se.

 

Imagens e Geografia

A postagem de hoje é um extrato de minha dissertação de mestrado. Mais especificamente, o capítulo onde debato o uso das imagens na ciência geográfica, a partir dessa aproximação busquei fazer um gancho com as Histórias em Quadrinhos.

imagens e geografia

Relacionar imagens e textos, figuras e signos verbais, referências visuais e linguísticas. Atentar aos significados remetidos e perceber os sentidos produzidos. Rir, emocionar-se, entristecer-se, refletir ou identificar-se. São muitas as ações envolvidas na leitura das HQs, assim como também o são as maneiras como ela pode subjetivar as pessoas com sua conjunção de formas expressivas. A luz e a sombra, o uso das cores, as perspectivas do cenário, os distintos planos, o formato e o tamanho das letras (além das palavras formadas por estas e que dizem algo em algum idioma), o traçado empregado pelo artista na realização dos desenhos. Tratam-se, todos, de elementos que servem de meio para a transmissão das diversas mensagens e ideias a serem veiculadas. Nesse momento a pergunta é: apenas na linguagem dos Quadrinhos nos deparamos com essa forma híbrida de expressão?

 

A VISÃO ALÉM DO ALCANCE

 

Cosgrove fala de uma “inscrição geográfica”, ou seja, uma grafia sobre a superfície do planeta, mas que também, habitando as mentes, ganha, por vezes, forma em outros suportes físicos, tais como desenhos em uma folha de papel. No trabalho desse autor é dada grande importância para a discussão do que ele chama de “visões geográficas”, termo usado para se referir à imaginação humana a respeito do espaço geográfico, fazendo com que encontremos uma forte articulação entre paisagem, mapa, pictórico, imagem e visão.

Essa visão, para o autor, traz consigo outro sentido, diferente do normalmente usado e não abrange elementos óticos, mas subjetivos, que interpelam o mundo, formulando-o, reformulando-o ou pré-formulando-o. Dito de outra forma, diz respeito às concepções e ao que podemos chamar de “visão de mundo”.

O olho já não parece mais assim tão inocente e os mapas, talvez os instrumentos mais relacionáveis com a Geografia, passaram a trazer mais do que informações cognoscíveis, quantificáveis ou memorizáveis, pois se começa a perceber que outros aspectos da mente humana, mais imaginativos e subjetivos, entram em jogo na sua leitura e há tempos se lhes atribui a produção de significados e sentidos, através das imagens e iconografias apresentadas por eles.

A visão geográfica, ainda que habite os imaginários, também se converte, com o intuito de expressar-se, em formas físicas visíveis. Pode ser encontrada impressa nos mapas, desenhos, figuras, croquis, fotografias ou, inclusive, descrições escritas. Porém não se limitará a esses veículos e, como que buscando impor-se, se inscreverá no próprio espaço, por exemplo, nas simetricamente dispostas plantações de eucaliptos que recobrem parte do território do estado do Rio Grande do Sul, no traçado das ruas dos grandes centros urbanos e seus viadutos e avenidas, no design homogêneo dos condomínios, no isolamento dos bairros mais pobres, etc. Não existindo, necessariamente, uma ordem de início ou fim para esse percurso realizado pela inscrição geográfica, podendo ser da mente ao mundo ou vice-versa. Apresentando essa inscrição, então, duas dimensões: uma imaginativa e outra, material. Nesse estudo daremos uma maior atenção à primeira.

Em um estudo de Nola Gamalho, tratando das políticas urbanas adotadas em Porto Alegre nas décadas de 60 e 70, em conformidade com uma política nacional da época; é possível ver que a remoção de comunidades pobres das áreas centrais da cidade era (ainda é?) a principal atitude dos governantes. A imaginação dos administradores municipais considerava que, na “capital do futuro”, não caberiam mais os becos poeirentos e os casebres de madeira; estes deveriam ser substituídos por largas e compridas avenidas asfaltadas, viadutos, prédios e automóveis (Figura 1). As formas modernas da cidade ganharam expressão gráfica e, então, se concretizaram espacialmente, dando materialidade a um tipo de visão geográfica, que se sobrepõe às demais.

Segundo Cosgrove (2008) Platão faria referência a uma ordem oculta do mundo, a qual seria revelada pela Geometria, que significa, literalmente, a “medida da Terra”. Assim, podiam-se observar, através dos cálculos das sombras em diferentes horários e locais da superfície terrestre, os movimentos dos corpos celestes, mapeando uma ordem celestial sobre o espaço da Terra. Ordem visualizada, mais tarde, na retilínea paisagem humana de campos cultivados e fazendas. As obras de Ptolomeu – Almagesto e Geografia – serviriam de base para, milhares de anos depois, pensadores do Renascimento estabelecerem como sendo três as escalas do universo: a Cosmografia, que trataria das descrições e medições do universo (ainda influenciada pelo geocentrismo); a Geografia, preocupada com os fenômenos climáticos, as terras e mares do nosso planeta e a Corografia, que envolveria o estudo das regiões locais e paisagens.

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Figura 1 – Porto Alegre do Futuro. Fonte – Zero Hora, 1970.

 

 

Acredito não caber aqui um aprofundamento dessas escalas do universo, as trago apenas para chamar a atenção ao sufixo “grafia” acompanhando cada uma delas. Ou seja, discursos construídos através do uso de imagens, da leitura e obtenção destas, em detrimento das palavras. Podemos identificar, então, um chamado “imperativo gráfico” inerente às visões de mundo, manifestadas principalmente de maneira visual, implicando formas, as quais, captadas por nossos olhos, procuram nos dizer alguma coisa.

Portanto, esse imperativo conduz a manifestações visíveis, gráficas. Por exemplo, historicamente, uma visão de um universo criado de maneira ordenada e harmoniosa por um Deus-Pai Todo Poderoso, procurou ser expresso em linguagens como mapas, diagramas, globos, gravuras e pinturas. Assim, encontramos círculos e formas geométricas simples, simetricamente organizadas nas imagens produzidas por Hartmann Schedel, publicadas em Crônicas de Nuremberg de 1493, e na obra do artista português Francisco de Holanda, de meados do século XVI (Figuras 2 e 3, respectivamente). Também, graficamente, o professor de matemática do Colégio Jesuíta na Roma do século XVII, Athanasius Kircher, construiu um mapa simbólico do mundo visto pelos jesuítas, onde no interior de vários círculos concêntricos, temos o ícone de Jesus Cristo, IHS (Iesus Hominibus Salvatorem), emanando sua luz divina para cada província jesuítica por igual, numa retórica gráfica, sintonizada com uma visão particular desse universo.

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Figura 2 – Crônica de Nuremberg. Fonte – Luminarium: Encyclopedia Project, 2010.

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Figura 3 – Francisco de Holanda. Fonte – Bibliodissey, 2008.

Ainda para Cosgrove, o anseio ordenador da harmonia universal também estaria presente no trabalho de Bacon quando manifestou, na obra Novo Organum, sua particular leitura do mapa-múndi, argumentando não ser fruto de um acaso a conformação dos continentes apresentada nele, amplos e abertos para o norte do globo e pontiagudos em direção ao sul (se referia aos continentes americano e africano). Esse fato, acreditava, era parte de mais um desígnio do senhor, o criador de tudo.

Além de buscar o papel de testemunha ocular, apresentando uma interpretação de uma realidade, carregada de concepções, anseios, esperanças e crenças, a visão simétrica e ordenada do mundo também se impõe sobre o mesmo. De que outra maneira se poderia interpretar uma linha reta traçada sobre o mapa-múndi, como fez o Papa Alexandre VI em virtude do Tratado de Tordesilhas, separando as possessões coloniais entre os impérios português e espanhol? O que fez o Papa? À régua, riscou uma reta sobre um mapa, o qual nada mais era do que um pedaço de tecido pintado, porém, acreditou-se que essa mesma linha se materializaria igualmente retilínea sobre as terras e oceanos, como se fosse possível dividi-los fisicamente. Dessa forma, repartindo o mundo entre os que imaginavam possuir o direito primeiro sobre ele.

Na Figura 4, vemos os contornos retilíneos dos limites entre os estados africanos do norte, aparentando terem sido riscados com o auxílio de réguas, lembrando muito a visão geográfica presente no Tratado de Tordesilhas. Que tipo de imaginação motivaria, principalmente, ingleses e franceses a dividir de forma tão arbitrária um vasto pedaço de continente, traçando retas sobre o papel e separando povos, costumes e culturas, afetando, talvez, outras visões, outras imaginações?

Continuando a comentar as visões geográficas impressas em mapas, Cosgrove nos traz as discussões estratégicas, entre pensadores imperialistas dos Estados Unidos e Inglaterra, que envolveram o Oceano Pacífico no final do século XIX. Um desses, Halford J. Mackinder, britânico, defendendo a importância estratégica de uma massa de terras como a Eurásia, impenetrável a qualquer ataque naval, formulou, para dar seu argumento gráfico, um mapa onde se vê na posição central o dito continente, chamado aqui de “área pivô”, deixando as Américas espremidas nas margens e, junto com elas, o Oceano Pacífico. Diminuindo, portanto, o tamanho daquela área do globo que passava a ser foco crescente de atenção das nascentes pretensões imperialistas dos Estados Unidos, um provável concorrente para o império britânico.

Para reforçar a ideia da dificuldade em proclamar uma ordem para o mundo e impô-la, poderia dar o exemplo dos cálculos geodésicos, pois, mesmo estes, ainda que rigorosos, admitem a irregularidade da superfície terrestre. Sabendo que o planeta Terra não apresenta a forma de uma esfera perfeita, os estudiosos preferem usar o termo geoide. Seja por modelos matemáticos ou por representações gráficas de todo tipo, a visão de um mundo ordenado se manifesta, buscando fazer visível essa suposta ordem.

Perceber as visões geográficas inscritas ou grafadas, manifestas e/ou impostas ao mundo, seja da forma que for, sobre o suporte que for, é um passo importante na construção de um entendimento crítico próprio sobre o espaço e de como se insere a nossa participação nele.

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Figura 4 – O norte da África. Fonte – Movimento Missionário, 2009.

 

O MUNDO DAS IMAGENS E AS IMAGENS DO MUNDO

 

Discutimos até aqui, neste capítulo, como as visões geográficas se apresentam e se fazem visíveis pelas imagens. Porém, como ou por que essas imagens nos afetam? Por que lhes damos tanta importância? Procuro trazer outro aspecto dessa discussão envolvendo o olhar, a construção de conhecimento e a produção de significados.

Insistindo ainda na Geografia como uma grafia, creio, assim como Oliveira Jr, que nosso estudo sobre o mundo também se dá pelas imagens grafadas a respeito dele. Grafadas pelas cores, no caso das pinturas; pelos traços, no caso do desenho, ou pela luz, no caso das fotografias. Embora não seja possível afirmar qual linguagem nos aproxima mais da realidade, se as imagens ou se os textos escritos, muito do que acreditamos saber sobre esse “real” nos chegou pelas suas imagens, através de nossos olhos.

Na medida em que, desde a chamada “virada cultural”, avançam os campos de estudos focados nas práticas culturais, a importância dada à linguagem na construção de subjetividades nas sociedades vem crescendo. Essa passa a ser considerada como constituinte dos próprios objetos que denomina, os quais começam a existir para nós através dos nomes com os quais os chamamos. É certo que as coisas podem existir fora dos sistemas de classificação criados pelos humanos em suas relações sociais, ou, para dizer de outra forma, pelas culturas. Entretanto, é só dentro de um desses sistemas que elas passarão a fazer sentido.

Muitos estudos anteriores ao meu ampliaram as linguagens nas quais se considera que o conhecimento geográfico é produzido. Assim, o espaço geográfico pode ser estudado através dos desenhos, das fotografias, das pinturas, do cinema ou da televisão. Por que não acrescentar nessa lista as HQs? Se a linguagem nos “fala coisas”, mais do que “fala sobre coisas”, as imagens dos quadrinhos já não podem ser vistas como os inocentes receptáculos que transportam a realidade para diante de nossos olhos. Elas próprias são uma realidade.

Educar a maneira de ver também pode ser parte do ensinar Geografia e, para isso, não basta apenas um treinamento para distinguir os mínimos elementos espaciais. Para Oliveria Jr, é preciso construir um pensamento sobre o que é ver, pois é principalmente a partir do que vemos que conhecemos a realidade. Então, que realidade nos mostra as imagens?

Trago como exemplo, para uma possível resposta, a apresentação fotográfica de um colega[1]. Em uma das fotos do slide (Figura 5), era possível ver uma imagem na qual o verde das copas de árvores preponderava, ocupando mais da metade da composição. Depois, alguns postes de iluminação pública e placas publicitárias apareciam modestamente na sua parte inferior, uns mais altos e outros menos, como que se erguendo de um esconderijo para fazerem-se ver em meio ao verde dominante. A foto não deixava dúvidas a respeito de si. Ao vê-la, imaginei alguma localidade da serra, talvez. Porém, foi inevitável um sentimento de estranheza ao saber que ela foi tirada no centro da minha cidade, Porto Alegre. Pois, como Oliveira Jr coloca, a dúvida não está direcionada à imagem, mas à informação sobre ela.  Quem diria que em meu banco de dados imaginário o verde não estava reservado para a capital gaúcha?

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Figura 5 – Praça da Alfândega. Fonte – Registrada por Wagner Innocencio

Assim, temos as imagens como formadoras dos próprios lugares, considerando que nossa imaginação sobre eles é parte constituinte dos mesmos. Dar-se conta dessa dimensão e pensar como os lugares são mostrados no cinema, na fotografia, nos mapas, nas pinturas ou nas HQs é, também, pensar em Geografia. Da mesma maneira, é importante analisar esses suportes, não como portadores da própria realidade, que está além deles e por meio dos mesmos a vemos, mas sim, como construções humanas ou culturais que, afinal de contas, são. Mesmo a linguagem cartográfica, possuidora de credibilidade acadêmica e escolar, nada mais faz que “apresentar” outra versão do espaço diferentemente de “representar” algo, pois o que é visto por meio dela não pode ser estendido, fielmente, para além do que temos diante de nós.

Por que não poderíamos estudar Geografia fora da sala de aula? O mundo só é realmente conhecido por meio dos livros e mapas? E se pensarmos de outra forma? Por exemplo, do bairro Restinga, na zona sul, até o centro de Porto Alegre, uma pessoa pode passar, às vezes, mais de uma hora sentado em um banco de ônibus. Frequentemente, olhar pelas janelas é a principal distração dos passageiros do transporte público. Através delas, porções do espaço passam diante de nossos olhos e em cada parada prestamos um pouco mais de atenção em um ou outro detalhe. Por exemplo, a área verde que até semana passada estava ali e agora dá lugar a escavadeiras, caminhões e operários. Vemos também as casas pobres e as casas ricas, a quantidade de carros na avenida, uma carroça deixando o trânsito mais lento, as pessoas que, nas ruas, trabalham, pedem, protestam, etc. Como páginas de uma história ou slides de um projetor, se nos apresenta o espaço geográfico, cena por cena, não como apenas o conjunto da materialidade ao nosso redor, nem somente uma superfície inerte sobre a qual nos movemos. Qualquer noção que veja no espaço apenas um suporte para coisas estáticas, sem movimento, história ou inter-relações, está, por certo, em desconformidade com este estudo. É necessário considerar, tal qual Milton Santos, “o espaço geográfico como a soma indissolúvel de sistemas de objetos e sistemas de ações”. Ou seja, é uma forma de conceituar que articula o todo e as partes, compreendendo uma extensão de objetos em contiguidade e interação constante, conformando, dessa forma, uma visualidade. Assim, cabe ao Professor de Geografia a tarefa de educar o olho para uma leitura mais atenta dessa grafia espacial.

Coloco-me junto aos que acreditam na possibilidade de se apreender o conhecimento geográfico por meio das mais diversas linguagens e que, portanto, as imagens jogam importante papel. Podemos dizer que grafar nossa visão sobre o espaço é, de alguma forma, geo-grafar e isso é mais possível ainda se pensamos a prática da Geografia também como uma prática de leitura e interpretação do mundo. Os fatos geográficos podem ser como um livro cujas páginas estão sob nossos pés e ao nosso redor; estamos imersos neles. Em outras palavras, me refiro ao espaço geográfico, à maneira de Rego, como o texto da Geografia, que deve ser lido e interpretado em seu estudo.

[1] Durante o 4° Seminário do Programa de Pós-Graduação em Geografia/POSGEA-UFRGS: “Outra(s) Geografia(s): O Espaço e a sua Multiplicidade”. Relizado entre os dias 11 e 13 de maio de 2011, em Porto Alegre.

COSGROVE, Denis. Geographic and Cosmological Visions. In: _________. Geography & Vision: seeing, imagining and representing the world. Londre: I.B. Tauris, 2008. p. 13-48.

OLIVEIRA JR, Wenceslao M de; MANSUR, Mônica. Fotografias, Geografias e Escolas. Disponível em http://alb.com.br/arquivo-morto/edicoes_anteriores/anais17/txtcompletos/sem05/COLE_1364.pdf. Acesso em 26 out. 2012.

OLIVEIRA JR, Wenceslao M de. Grafar o Espaço, Educar os Olhos. Rumo a geografias menores. Pro-Posições, Campinas, v.20, n.3 (60), p. 17-28, set/dez. 2009.

OLIVEIRA JR, Wenceslao M de. Vídeos, Resistências e Geografias Menores: Linguagens e maneiras contemporâneas de resistir. Terra Livre, São Paulo, v.1, n.34, p. 161-176, jan/jun. 2010.

OLIVEIRA JR, Wenceslao M de. Fotografias Dizem do (nosso) Mundo: educação visual no encarte Megacidades, do jornal O Estado de São Paulo. In: TONINI, Ivaine Maria et al (Orgs.) O Ensino de Geografia e suas Composições Curriculares. Porto Alegre: UFRGS, 2011. p. 245-257.

As Transformações do Espaço Geográfico na sala de aula através das histórias em quadrinhos

O ensino de Geografia praticado nas escolas muitas vezes se caracteriza por uma coleção de informações a serem repassadas aos alunos. Não é raro nos depararmos com professores aplicando provas que exigem do aluno saber quais são os principais recursos minerais do Canadá ou os produtos que fazem parte da pauta de exportações do México, etc.

Nesses casos, que tipo de Geografia se está trabalhando em aula e que conhecimento se busca atingir com essas estratégias? Certamente, é necessária a memorização de alguns elementos chave para se praticar uma leitura geográfica, por

exemplo, alguns países de cada continente, os nomes de alguns organismos internacionais, as maiores cidades brasileiras, as características de algumas regiões do mundo, entre outras coisas. Mas, parece que a chamada “decoreba” ainda ganha muito destaque nas escolas brasileiras. Ao mesmo tempo, se discute, e muitos fazem acordo, quanto a importância de um ensino crítico, menos dedicado à memorização e mais à reflexão, porém, quantas são as propostas existentes para a prática desse ensino?

Apresento uma tentativa, entre tantas outras, de contribuir com o desafio que é a elaboração de práticas de ensino de Geografia que estimulem a criatividade e o exercício do pensamento dos alunos. Para isso, trago o exemplo de uma atividade, na qual fiz uso da linguagem das Histórias em Quadrinhos (HQs), para observar e discutir, em sala de aula, as transformações que ocorrem no espaço geográfico.

QU AL ENSINO DE GEOGRAFI A?

Que objetivo busco atingir com minhas práticas em sala de aula? Essa pergunta pode não ser tão óbvia como parece. É relativamente fácil para um professor ou professora cair na armadilha do cotidiano, e fazer-se esse questionamento todos os dias pode ser um meio de se prevenir. Para quem trabalha em uma escola pública brasileira, normalmente vai se deparar com uma quantidade considerável de turmas e estudantes. Entrar e sair de uma sala de aula e outra, elaborar provas e trabalhos, fechar notas, preencher cadernos de chamada, entre outras coisas, podem nos levar a realizar nosso trabalho de forma mecânica, automatizada. Além disso, não são todas as escolas que oferecem um tempo para “parar para respirar” e conversar sobre o trabalho que está sendo feito, assim, o risco de sermos apanhados pelo ritmo do dia-dia escolar é grande.

Portanto, quando elaboro uma atividade para meus alunos e alunas, primeiro penso em onde quero chegar com ela. Ainda que, num primeiro momento, seja grande a chance de não atingir esse objetivo programado, penso ser necessário fazer essa reflexão, pois, a experiência pode nos ajudar a aperfeiçoar nossas práticas, prevenindo um possível “estancamento” delas. Para quem se encontra na mesma situação que a minha, professor do ensino fundamental em uma escola pública brasileira, acredito que, devido às poucas brechas existentes dentro da rotina escolar para a prática do pensamento, pode ser válido refletir sobre que tipo de ensino não quero realizar. Por exemplo, não quero privilegiar demasiadamente a capacidade de memorização e resignação (alunos calados me observado) em minhas atividades. Prefiro alunos mentalmente ativos, pensando e criando, do que muito bem comportados me ouvindo, sem refletir em nada do que está sendo trabalhado.

Dessa forma, propor atividades que estimulem a problematização

e análise do mundo me parece necessário para quem se aproxima dessa ideia de ensino de Geografia. Ajudar a construir um conceito não é o mesmo que dar a explicação pronta para ser digerida, memorizada e repetida em uma possível prova, como argumenta Costella (2013, p.65):

Construir o conhecimento geográfico é diferente

de estudar Geografia de forma enciclopédica. Entender

os acontecimentos refletindo sobre os fatos

não significa memorizar os dados e assim apenas

ter segurança em repassá-los. Entender os fenômenos

é conseguir, a partir deles, desenvolver a

condição de mobilizar o pensamento e conseguir

assim aproveitá-lo em diferentes situações. (…)

São essas ações que permitem a construção do conhecimento. Da mesma maneira que é necessária essa reflexão de onde queremos chegar com as atividades que preparamos para nossas aulas, também acredito ser importante buscar conhecer, o melhor possível, os conceitos que queremos trabalhar.

Evidentemente, alguém pode argumentar que essa não é uma questão válida, afinal um professor deve ter domínio total sobre todos os conceitos de sua disciplina. Infelizmente, tendo a acreditar que isso não se dá dessa maneira.

O cotidiano escolar pode nos afastar das discussões atuais,ou de quaisquer discussões, sobre nosso campo de conhecimento e podemos facilmente nos conformar em repetir conceituações ou enunciados prontos em livros didáticos e quanto melhor posicionados estivermos dentro da nossa disciplina e do mundo, creio que o trabalho em sala de aula será o mais honesto possível para com estudantes e escola, no sentido de que faço todos e todas saberem como penso e me posiciono. Além do mais, quando temos certeza absoluta de conhecermos algo, aí é que estamos mais perto de não conhecê-lo. Talvez, manter algumas dúvidas, consciente de que meu conhecimento sobre determinada matéria nunca estará pleno, seja uma atitude saudável. Como diz Freire (2002, p.22): “(…) o inacabamento do ser ou sua inconclusão é próprio da experiência vital. Onde há vida, há inacabamento”.

Assim, gostaria de discutir um pouco o conceito geográfico que procurei abordar na proposta de atividade que apresentarei nesse artigo.

ESPAÇO E QUADRINHOS

O conceito de Espaço me parece algo não muito fácil de definir e fazer isso agora não é o objetivo deste texto, mas posso dizer que existe certo consenso de que ele é o objeto da ciência geográfica. Para Haesbaert (2011) o Espaço poderia ser considerado a categoria maior da Geografia, de onde se desprenderia os demais conceitos, território, região, paisagem, lugar, etc. Santos (2006) faz uma definição geral sobre essa categoria maior, para ele o Espaço é formado por um conjunto de sistemas de objetos e sistemas de ações, ou seja, as formas naturais e técnicas sobre a superfície do planeta que compõe uma totalidade em constante transformação.

Sem a intenção de simplificar todo um debate, creio que essas definições são suficientes para trabalhar com turmas de ensino fundamental, considerando que, segundo o PCN de Geografia (1998), essa etapa da educação básica deve estar voltada para a construção das noções de cidadania e pensamento crítico. Além disso, “ajudar a formar conceitos é (…) um papel central do professor” (CAVALCANTI, 2013, p.224), por isso, auxiliar os alunos a construir sua noção de Espaço, aproximando-se o máximo possível de seu conceito é um dos objetivos da proposta de prática aqui apresentada.

O estudo da Geografia através da leitura do Espaço, observando suas características e suas transformações em mapas, fotos, desenhos, etc. pode muito bem guardar relações com a linguagem dos Quadrinhos. McLoud (1995, p.62) coloca que “nossa percepção sobre a ‘realidade’ é um ato de fé baseado em meros fragmentos”.

Nunca estive na Ucrânia, mas através de relatos e imagens de TV e jornal, acredito que ela exista. Tudo que sei sobre o mundo me chegou em pedaços pelos dos meios de comunicação, assim me impressionei com os enfrentamentos entre manifestantes e policiais na Grécia, com as enormes ondas que invadiram as costas tailandesas, com as magníficas cadeias de montanhas do Himalaia, etc. Dessa maneira, juntando partes, vou construindo uma ideia do todo que possa ser o mundo.

Da mesma forma, lemos uma HQ. Cada página nos traz determinada quantidade de quadrinhos e vamos montando eles mentalmente para ter uma noção do todo que é a história que o autor quer nos contar. Cada fragmento possui uma relação um com o outro e através da sequencia com que nos são mostrados, construímos um sentido para eles. A diferença é que no estudo da Geografia, não temos essa facilidade, os fragmentos do mundo não estão dispostos linearmente e para fazermos uma leitura satisfatória temos que usar nossoraciocínio e nossa imaginação.

Para Santos (2006), os objetos materializam o tempo no Espaço, inseridos segundo uma ordem, uma sequencia, eles dão um sentido para aquele meio. A construção do condomínio, no exemplo anterior, pode significar um avanço da ocupação humana naquela porção do espaço, modificando a paisagem e produzindo um sentido para quem a observa.

Moradores antigos do local podem ter uma visão pessimista desse fato, ou seja, maior fluxo de automóveis e gente, barulho, lixo, etc. e empresários do setor imobiliário podem ver a situação de modo inverso, possibilidade de aumento nos negócios, por exemplo. Novamente, a sequencia dos eventos produz um sentido para aquele meio.

Nas HQs, a noção de tempo também tem a ver com a sequencia dos eventos apresentados. Para todos os efeitos, cada quadrinho comprime um instante do tempo e do espaço.

Uma ação divida em muitos quadros, valorizando cada aspecto da mesma, pode dar uma noção de uma passagem de tempo mais lenta. Um corte abrupto de uma cena para outra, traz a ideia de velocidade, rapidez. Em realidade, nas Histórias em Quadrinhos, tempo é espaço (McLOUD, 1995).

Não valeria o mesmo para o Espaço geográfico? Fica aqui essa questão para aprofundamento futuro.

A leitura geográfica, o estudo da Geografia como uma leitura de um texto/mundo ou de um mundo/texto, já foiabordada por REGO (2003). A experiência de sala de aula trazida aqui, e realizada em meu local de trabalho, pode ser uma proposta para trazer essa ideia para a prática.

QUADRINHOS E LEITURA

GEOGRÁFICA NA SALA DE AULA

A utilização de HQs em sala de  aula tem sido cada vez mais comum. O potencial pedagógico dessa linguagem já foi explorado em dezenas de práticas e trabalhos escolares.

Para a experiência que apresentarei aqui, usei a HQ intitulada Uma Breve História da América, como mostra a Figura 1, de

Figura 1 – Uma Breve História da América. Fonte – CRUMB, Robert. América. São Paulo: Conrad, 2010.

autoria do quadrinista estadunidense Robert Crumb. É possível observar que o autor buscou apresentar um exemplo do processo de urbanização pelo qual passou uma imaginária paisagem americana. Na ordem escolhida pelo autor, vemos os objetos naturais serem gradativamente substituídos pelas formas construídas pelo homem, até que não reste mais nada das características iniciais. Um processo comum em diversas partes do mundo.

A atividade consistiu em recortar os quadrinhos dessa HQ e entregá-los aos alunos, fora da ordem original, pedindo-lhes que imaginem uma sequencia para os acontecimentos apresentados nos quadrinhos e os organizem como tal.

O autor não nos apresenta as casas sendo construídas por operários, nem a rua ser asfaltada, mas imaginamos que foi isso que aconteceu. Poderia ser diferente? Não sabemos, por isso, ao pedir aos alunos que construíssem sua ordem, não estabeleci a existência de uma sequencia “certa” para os quadrinhos, os deixei livres para que escolhessem as suas.

Existe outra possibilidade de sequencia para a HQ de Crumb? Quem sabe a história poderia começar pelo último quadrinho? Isso implicaria considerar que um processo de urbanização pode ser revertido. De fato, algo semelhante a isso pode acontecer. É possível encontrar no mundo exemplos de cidades esvaziadas, seja por uma guerra civil, por um desastre climático, por uma epidemia, por um acidente nuclear, etc. Por isso, qualquer ordem vinda dos alunos era válida, cabendo a mim o papel de problematizar as escolhas feitas por eles. Por que escolheram determinada sequencia? O que seria preciso acontecer para se justificar a ordem escolhida?Enfim, aqui é requerida certa dose de criatividade por partedo professor.

Um aluno explica a sequencia escolhida por ele da seguinte forma:“(…) Com o tempo o lugar foi evoluindo mais e mais (…)”. Nesse exemplo, outra discussão é possível ser feita: Todo processo de urbanização, ou seja, a substituição total das formas naturais por outras construídas pelo homem vai representar,necessariamente, uma “evolução”? Que significados normalmente são atribuídos a essa expressão? Podemos dizer que, no caso aqui, “evoluir” significa alcançar uma melhor condição de existência? Temos que estar atentos para o que os alunos têm para nos apresentar.

Outra atividade ligada a essa história é pedir aos alunos que construam um último quadrinho para a sua sequencia. Como ela poderia terminar? Que fim pode ter esse processo de urbanização? Ou de “desurbanização”, se for o caso. Na história original, o autor apresenta um epílogo com três finais distintos para a sua história, podemos vê-los na Figura 2.

Figura 2 - Epílogo. Fonte - CRUMB, Robert. América, São Paulo: Conrad, 2010.

Figura 2 – Epílogo. Fonte – CRUMB, Robert. América, São Paulo: Conrad, 2010.

A primeira alternativa coloca um desastre ecológico de algum tipo, esvaziando a cidade e deixando apenas ruínas. No segundo quadrinho vemos veículos voadores, jardins formatados homogeneamente e casas de arquitetura mais compacta e simples, podendo lembrar certa racionalidade. Por fim, temos uma espécie de eco-vila, sem automóveis, prédios ou asfalto, onde as árvores predominam e transmitem um tipo de sensação de tranqüilidade.

Sem apresentar essas alternativas aos alunos, lhes pedi que criassem o seu último quadrinho, deixando-os livres para criarem, pois as possibilidades são infinitas, tanto para a imaginação deles, quanto para as transformações espaciais.

Basta lembrar que na história do planeta, florestas cobriram desertos e montanhas isolaram mares.

Trago um dos trabalhos dos alunos na Figura 3.

Figura 3 - O Tempo. Fonte - Trabalho de aluno.

Figura 3 – O Tempo.  Fonte – Trabalho de aluno.

Nele, procurou-se representar a cidade logo depois daquele intenso processo de urbanização. No desenho, vemos que a quantidade de construções diminui um pouco e as árvores voltam a ganhar sensivelmente mais visibilidade.

Explicando o seu desenho, o aluno escreve: “Em lugar de casas a um morro (…) as casas foram saindo e criou um morro (…). Criou também um hospital para as pessoas com ambulância e tudo (…)”

Nesse exemplo, a primeira discussão que podemos fazer é: como pode se “criar” um morro ou um hospital? Quais são os processos responsáveis por modelar o relevo? Qual é a necessidade de se construir um hospital? Quem tem o papel de construir hospitais? Essas são algumas problematizações possíveis. Também podemos discutir sobre essa noção de “criar”. Não estaria aí uma ideia de que as transformações espaciais acontecem de maneira “natural”? Ou seja, de que não há influência da vontade humana nas coisas ao nosso redor.

Assim, podemos “naturalizar” a derrubada de uma floresta, a remoção de uma favela, um congestionamento de trânsito, etc. Como se tudo que acontecesse no mundo não nos dissesse respeito e tão pouco pudéssemos fazer qualquer coisa para interferir, como se todas as transformações espaciais fossem tão inevitáveis quanto a queda de um relâmpago, um terremoto, uma erupção vulcânica ou um furacão.

Enfim, são muitas as possibilidades que essa atividade traz para as discussões em sala de aula, tirando o aluno da posição de receptor de informações, e fazendo do professor um auxiliar na busca pela construção do seu conhecimento.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Os assuntos relacionados ao ensino de Geografia e às Histórias em Quadrinhos não podem se esgotar em um único trabalho. Assim, fica aberto mais um caminho, entre vários, para que essa viagem tenha prosseguimento.

Cabendo ao professor escolher o seu O importante, na atividade proposta aqui, é sempre manter-se aberto para o que os alunos podem trazer e procurar não apresentar o caminho “certo”, deixar que façam suas escolhas, pois tudo que trazem, pode ser aproveitado em sala de aula, basta estar com seu ouvido atento. Um aluno, em seu trabalho, concluiu sua história com um “apocalipse zumbi”. Mesmo essa ideia, pode ser relacionada com o conteúdo das transformações espaciais, se a considerarmos tal como uma epidemia de uma doença qualquer que ataca uma determinada população.

Embora possamos, eventualmente, nos preocupar com o fato dos alunos não terem compreendido determinado conceito, é preciso considerar que o conhecimento não se constrói apenas naquele momento em sala de aula. Aí pode acontecer um primeiro impulso, mas serão necessárias mais experiências de vida, mais leituras, sempre em busca de preencher uma eterna incompletude, um eterno inacabamento.

Tal como o Espaço geográfico, sempre mutável. Nunca acabado. Acredito que nosso papel está próximo de ser cumprido se podemos auxiliar os alunos para que construam sua leitura, seu entendimento sobre o mundo, e então possam fazer suas escolhas, quer seja a de se tornarem meros expectadores ou de intervirem para a sua modificação. É bom lembrar que nenhuma dessas escolhas implica passividade, pois ambas possuem suas consequencias.

REFERÊNCIAS

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