O Espaço em Quadrinhos

Quadrinhos na internet

Como primeiro post desse blog, escolhi o artigo que enviei para o II Congreso Internacional Viñetas Serias, que teve lugar na cidade de Buenos Aires, no ano de 2012. Nele discuto um pouco a ligação entre o uso das imagens e o conhecimento geográfico, também trago um relato de prática de aula com a linhagem dos quadrinhos.

O Espaço em Quadrinhos

Este artigo se baseia em meu trabalho de mestrado, realizado no Programa de Pós- Graduação em Geografia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. De maneira mais compacta, apresentarei as principais discussões levantadas em minha pesquisa e as experiências, nas quais me envolvi, com o uso das Histórias em Quadrinhos (HQs) na prática de ensino de Geografia.
Compreendendo que o conhecimento geográfico pode ser estudado em mais de uma linguagem, portanto, indo além do texto escrito, dos gráficos e, principalmente, dos mapas (Oliveira Jr, 2010), proponho, certo de que não sou o único a fazer isso, a utilização de um veículo cada vez mais presente no universo acadêmico e escolar: as HQs (Vergueiro; Ramos, 2009).
As imagens fazem parte da construção do discurso geográfico desde há muito tempo (Cosgrove, 2008), com o uso de desenhos, croquis, fotos, com a observação da paisagem, etc. O pictórico está presente de muitas maneiras no estudo da geografia, assim, educar os olhos se torna uma questão importante no ensino dessa disciplina, não apenas no sentido de adquirir uma capacidade de captar visualmente os detalhes do espaço geográfico, suas cores e formas, mas também no de trabalhar uma compreensão do que significa o ato de ver (Oliveira Jr, 2009), de como construímos conhecimento através dele e de como o que vemos ao nosso redor se enche um pouco de nós mesmos, de nossas concepções, de nossas imaginações. Dessa forma, ao se constituir de uma leitura de imagens, as HQs têm muito para contribuir.

Começando a História

A Escola Municipal de Ensino Fundamental Dr. Jorge Germano Sperb, na cidade de São Leopoldo, foi o local escolhido para o desenvolvimento de minhas propostas de atividades em aula. Neste texto apresentarei uma delas, que se deu da seguinte maneira: cada dupla de alunos procurariam imagens digitando palavras-chave ligadas ao conteúdo estudado em aula, como «capitalismo», «socialismo», «desenvolvimento»,
«subdesenvolvimento», «desigualdade», «livre-mercado», «pobreza», «riqueza» e

«consumismo». Com as imagens escolhidas, a elaboração de HQs, usando um programa de edição digital de imagens, seria o passo a seguir. A montagens teriam de uma ou até duas páginas. Estou ciente de que esse condicionamento para a busca no site teria implicação nos trabalhos, quiçá limitando sua criatividade, mas entendi ser necessário, para que os mesmos se focassem na tarefa. Sabemos como a disponibilidade de internet pode levar alguém à dispersão fácil e entendo que aí estava meu papel como professor, ou seja, tornar possível aos alunos o alcance de suas potencialidades de criação e aprendizagem.
A escolha das imagens era livre, dentro das sentenças propostas e de acordo com a história pensada por eles. Feito isso, cada dupla partiu para o uso do OpenOffice-Draw. Um programa onde é possível trabalhar com diferentes imagens, ordená-las, diminuí- las, aumentá-las, sobrepô-las, acrescentar textos em caixas ou em balões, etc. Trata-se de uma versão equivalente ao Publisher, o editor de imagens do Windows. O uso dos computadores não representou uma dificuldade para esses jovens: como era de se imaginar, todos já estavam habituados a comunicar-se pelas redes sociais da internet e a realizar seus trabalhos escolares através dessa ferramenta.
Nesta parte da atividade é que as imagens aleatórias do Google ganhariam um ordenamento ou uma imaginação, não sei se distinta do comum ou não. Para Goettert (2010: 96), «Imaginar o Mundo Moderno é imaginar um mundo feito margens, pedaços recortados de um espaço desigual, mas combinado». Assim, esse mundo recortado que o Google Imagens nos apresenta receberia uma combinação, através da capacidade que a linguagem dos quadrinhos possui de, por meio da imaginação do leitor ou do autor, dar sentido àquilo que, de maneira objetiva, se encontra fragmentado. E, de certa maneira, não apenas pela Internet vemos um mundo em partes. Segundo McLoud (1995: 62): «Nossos sentidos podem revelar um mundo fragmentado e incompleto. Mesmo uma pessoa muito viajada só pode ver partes do mundo durante uma existência. Nossa percepção da “realidade” é um ato de fé baseado em meros fragmentos». Ou seja, nossa capacidade de imaginar o que não está dado para os olhos pode ser trabalhada através da leitura das HQs, aproximando-a com a leitura geográfica.
Em todos os Quadrinhos analisados, aspectos diferentes do imaginário ligado ao capitalismo são observados. A ideia de ascensão social, de que somente com um elevado patamar de consumo se pode atingir a chamada felicidade, a noção de desenvolvimento e o conflito entre ricos e pobres e suas implicâncias espaciais são trabalhados pelos alunos, trazendo possibilidades para a análise geográfica. Assim, parte das construções que sustentam o discurso capitalista se faz presente nas atividades realizadas e podem, assim, ser interpeladas pelo professor. Trago dois desses trabalhos feitos pelos alunos, com suas ortografias originais.
Observando a primeira montagem, a da Figura 1, intitulada Crianças Com Fome!, vemos, no quadrinho inicial se vê a imagem de uma criança raquítica, disponibilizada pelo Google Imagens ao se digitar as palavras «pobreza» ou «subdesenvolvimento».
Parece difícil imaginar outra fala para aquela personagem além da lida no balão:

«Que vida ruim, não tenho os pais, moro na rua e tenho muita fome». A história continua no próximo quadrinho, com outra personagem (ou será a mesma?), referindo- se ao seu local de moradia, semelhante a um campo de refugiados, da seguinte maneira:
«Moro aqui neste lixo». No final ela manifesta um desejo, o seu balão de fala projeta-se para a parte inferior da folha, ao lado direito do último quadrinho e nele se pode ler:
«Queria viver assim»! Ao lado esquerdo desse balão se vê um quadrinho com a imagem de pessoas em um momento de lazer e relaxamento. Este se divide em dois, de um lado um casal imerso da cintura para baixo em um lago de águas cristalinas se alimenta de frutas tropicais e no horizonte se vê o que parece ser uma montanha coberta de vegetação, o que dá um aspecto paradisíaco à cena. Na outra metade do quadrinho, parecemos ver vizinhos realizando uma confraternização, com garrafas de cerveja sobre uma «mesa-boia», bem como um botijão de gás, que parece servir para cozinhar ou assar algo.
No último quadrinho, uma situação de desigualdade está retratada: enquanto os ricos viajam para um paraíso terrestre, os pobres aproveitam uma enchente para fazer uma festa na «piscina». A situação dos moradores do bairro na foto, ainda que de precariedade, parece ser melhor que a do menino pobre do quadrinho anterior, justificando a sua fala.
Na transição do segundo para o terceiro quadrinho há um grande salto espacial, um salto duplo, se considerarmos os dois espaços mostrados no mesmo quadrinho: a ilha paradisíaca e o subúrbio de uma grande cidade. Ambos representando uma vontade do menino de mudar de vida, de alcançar uma existência menos precária. O caminho a percorrer para chegar àquela mesa farta no lago parece ser longo e, para a história única mundial, não há outro, apenas o do sucesso financeiro, com viagens turísticas ao redor
do mundo. Fora desse caminho, só existe a miséria, a barbárie e a não-civilização. Assim, fecham-se as probabilidades e as proliferações de pensamentos, de concepção de outras formas de convívio entre as pessoas e dessas com o espaço geográfico (Oliveira Jr, 2010).

figura1

 O próximo trabalho, nas Figuras 2 e 3, também abordará a questão da desigualdade social, porém trará outra dimensão dela, a do conflito social. Em Um
Mundo Diferente temos, no primeiro quadrinho, a imagem de um homem rico, com um charuto entre os dedos e rodeado por notas de dinheiro e outros símbolos de riqueza, que, em sua «fala», se gaba de sua situação: «Como é bom ser rico sem nenhum pobre para atrapalhar». No segundo quadrinho temos uma concentração de pessoas com bandeiras, sendo que as vermelhas estão em destaque, sugerindo uma manifestação de protesto. Lendo o quadro ao lado esquerdo, descobrimos quem é esse homem: «Então armaram uma greve para invadir a casa do enpresaria Carllos para acabar com a suas riqueza». Seguindo a leitura, temos uma transição que nos leva à cena de uma provável loja de televisores, repleta desses aparelhos, onde um dos personagens «fala», através de um balão: «Terremos que falar com nosso inpresario Carlos que não esta dando serto as vendas de TVs».
O resultado se vê no último quadrinho, com pessoas em uma espécie de «lixão», onde, de um balão partindo de uma delas, se pode ler: «Que merda esse inpresario tirou nossas casa e nos jogou no meio do lixo».
Do mesmo modo que em todas HQs de alunos apresentadas nesse trabalho, esta trará uma transição quadro a quadro conhecida, segundo McLoud (1995:71), como
«transição cena – a – cena», na qual somos levados, através de grandes cortes espaciais e temporais, de uma parte a outra da narrativa, cobrindo consideráveis distâncias. Assim, conhecemos a história de um empresário que, talvez pela greve de seus empregados, vê as vendas de suas lojas de televisão baixarem e com isso resolve investir no ramo imobiliário, comprando terras, nas quais pessoas pobres moravam, para a construção de casas de alto padrão.
 Figura 2

Figura 3

De que «mundo diferente» esta história nos fala? Sou assaltado pelo mesmo sentimento de Foucault ao contemplar “Isto não é um cachimbo”, de Magritte (Foucault,
2004). Mais uma vez, os olhos voltam-se para a HQ, a fim de procurar o que há de diferente nesse mundo. Vemos o conflito comumente estabelecido entre os possuidores de riquezas e os carentes materiais, cuja situação de pobreza sempre o coloca em desvantagem social, pois além de viverem em moradias precárias, não têm nem a certeza da sua permanência nas mesmas. O vai e vem dos mercados influenciando as ações humanas, como a compra de um terreno e o seu uso para construção de um bairro privado, ou a expulsão de famílias de alguma área e a sua consequente conversão em sem-tetos a inchar a população de rua e a pobreza nas cidades, ou, então, a diminuição do poder de compra dos salários dos trabalhadores, levando-os a decretar uma greve contra essa situação de concentração de riqueza. Até aí não parece haver diferenças significativas com o que se conhece sobre o mundo, normalmente.
O próximo quadrinho mostra o que parece ser uma favela vista de longe e o quadro ao lado esquerdo segue a narrativa textual: «Carlos quer conprar esta vila para construir casas chiques para sua revenda», dando a entender que o empresário Carlos decidiu mudar de ramo de negócios, do comércio de aparelhos eletrônicos para a especulação imobiliária.
Cada imagem usada na HQ, se tomada isolada das demais, possivelmente produzirá um sentido diferente do produzido quando em junção com as outras. A imagem de pessoas em um chamado lixão, grosso modo, não é mais do que isso. Porém, a maneira como ela foi introduzida na narrativa é que nos faz pensar em como essas pessoas foram levadas para lá e quão injusta é essa situação. Certamente, não seria necessário que uma imagem como esta fizesse parte de uma sequência de outras, ou viesse acompanhada de um balão de fala, para que o leitor a considerasse como a representação de uma injustiça social. Isso porque este já teria, provavelmente, sua carga de experiência sobre o mundo, sentidos já produzidos, visões já formadas,
fazendo-o chegar a essa conclusão, assim como outro alguém poderia chegar à outra qualquer. Não precisaria ser uma fotografia o objeto de contemplação; estou me referindo a todas as nossas experiências sensíveis, seja assistindo à televisão ou a um filme, seja caminhando pelo bairro, ou como passageiro de ônibus ou trem. Nossa visão, no sentido de concepção de mundo, estará o tempo todo ligando cada impulso visual com a nossa imaginação.
Um mundo diferente, ou um espaço geográfico, pode ser percebido por cada um de nós: o empresário rico, o pobre despejado, o professor, a professora, o estudante, o morador de um bairro operário ou de um condomínio de luxo. Vemos vários mundos e agimos, ou não, para viver nesses mundos como os imaginamos. Nossos conceitos mediam nossa relação com o que está ao nosso redor, o espaço em que vivemos, bem como espaços mais distantes. Usando outras palavras, Rego (2003: 280) se refere a essa leitura como uma hermenêutica instauradora:

Seria exatamente essa hermenêutica [interpretação geográfica], no sentido de que ela tem esse texto primeiro, que é o espaço geográfico, e que através de seus conceitos vai relacionando estes fatos [geográficos] […] torna-se [então] possível estabelecer inter-relações e nexos explicativos entre os fatos e, portanto, níveis de entendimento cada vez mais complexos, com capacidade de articulação entre o particular e o global.

Dessa forma, ao trabalhar as HQs os alunos realizaram uma leitura geográfica, articulando fatos como a existência de pessoas pobres, moradores de rua, pessoas ricas, condomínios de luxo, favelas, desigualdade social, manifestações populares, engarrafamentos de trânsito, etc. enxergando nexos expressados em seus trabalhos, como, por exemplo, o da luta individual por ascensão social em um mundo capitalista e a imposição de haver uma história única a ser seguida por todos.

Sugerindo Caminhos
Sendo as imagens um importante meio pelo qual conhecemos o mundo, trabalhar com elas no ensino de Geografia se faz necessário e a maneira particular com que a linguagem dos Quadrinhos comunica tem muito a acrescentar a essa empreitada. As HQs podem auxiliar na construção de um olhar capaz de distinguir e dar sentido à torrente de imagens que nos chegam todos os dias pela mídia, procurando, assim, a interpelação dos discursos e praticando, portanto, uma leitura que é mais do que a recitação de palavras escritas, porque:

Leitura não é só livro. Leitura é tudo. […] Assim, pode-se dizer que uma leitura sempre é o caminho para outras mais, numa espiral sem começo ou fim. Um outdoor leva a uma fotografia, que leva a um vídeo, que leva a um programa de televisão, que leva a um desenho animado, que leva a uma história em quadrinhos, que leva a um livro, que leva a um filme, que leva a um outdoor anunciando a estréia de um longa-metragem (Vergueiro; Ramos, 2009:40)

Minha experiência se deu de forma complementar a aula expositiva do professor titular da turma participante do estudo. Nesse sentido, então, o trabalho não visou à superação de um dito modo antigo ou tradicional, nem se apresentou como a salvação para professores cansados e alunos desinteressados. Os Quadrinhos podem servir de ferramenta auxiliar para o conteúdo de Geografia, mas avançar desse uso puramente utilitarista para a construção de uma aula mais criativa e instigante me parece de grande interesse.
Sobre os Quadrinhos em sala de aula, Vergueiro e Ramos (2009, p.9) colocam: “Houve um tempo, não tão distante assim, em que levar revistas em quadrinhos para a sala de aula era motivo de repreensão por parte dos professores”. Se no passado as HQs eram incompatíveis com o ambiente escolar, essa realidade, como vimos, tem mudado.
Referências Bibliográficas

COSGROVE, D. (2008): Geographic and Cosmological Visions, Londres, Tauris.
FOUCAULT, M. (2004): Isto não é um Cachimbo, Porto Alegre, Sabotagem. McLOUD, S. (1995): Desvendando os Quadrinhos, São Paulo, Makron Books. OLIVEIRA Jr, W. M. (2009): «Grafar o Espaço, Educar os Olhos. Rumo a geografias menores», Pro-Posições, 3: 17-28.
OLIVEIRA Jr., W. M. (2010): «Vídeos, Resistências e Geografias Menores: Linguagens e maneiras contemporâneas de resistir», Terra Livre, 34: 161-176.
REGO, N.; SUERTEGARAY, D.; HEIDRICH, A. (2003): «O Ensino de Geografia Como Uma Hermenêutica Instauradora» en REGO, N.; C. AIGINER; C. PIRES; H. LINDAU (eds.) (2003): Um Pouco do Mundo Cabe nas Mãos, Porto Alegre, UFRGS,
275-308.

VERGUEIRO, W; P. RAMOS. (2009): «Os quadrinhos (oficialmente) na escola: dos PCN ao PNBE» en VERGUEIRO, W; P. RAMOS. (eds.) (2009): Quadrinhos na Educação, São Paulo, Contexto, 9-42.

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